Identidade Histórica · 01

Panorama
Histórico
de Olinda

Fundada em 1535, inscrita pela UNESCO em 1982 — cinco séculos de história viva entre o morro e o oceano.

c. 1500
Antes do nome · Povos originários

Litoral dos povos originários

Os Tabajaras — "senhores das aldeias" — e os Caetés habitavam o litoral pernambucano há pelo menos dois milênios antes da chegada europeia. Pescadores experientes, ceramistas e guerreiros, esses povos organizavam suas aldeias nas mesmas colinas onde hoje se erguem as igrejas barrocas da cidade histórica. A mata atlântica cobria densamente o litoral; os recifes de corais formavam barreiras naturais que os navegadores europeus tardariam a identificar.

O primeiro contato registrado com a costa pernambucana data de 1501, com a expedição de Gonçalo Coelho — poucos anos após o "descobrimento" de Cabral. As relações iniciais oscilaram entre o escambo pacífico (pau-brasil por ferramentas) e os conflitos territoriais crescentes. Em poucas décadas, a combinação de doenças, escravidão e guerras reduziria drasticamente as populações indígenas do litoral.

Seria o gravador flamengo Theodor de Bry quem imortalizaria esses povos, a partir de 1590, em coleções ilustradas que circularam pela Europa inteira. Baseadas em relatos de viajantes franceses e alemães, essas gravuras — com seu espanto e incompreensão — tornaram-se o arquivo visual de um mundo prestes a desaparecer.

"Uma terra de rara formosura, coberta de arvoredos até a beira do mar, com muitas ribeiras de águas frescas e claras."

— Pero Vaz de Caminha, 1500
1535
Vila d'Olinda · Fundação

Tão formosa, ó linda

Em 1532, D. João III dividiu o Brasil em capitanias hereditárias e concedeu a de Pernambuco a Duarte Coelho Pereira, fidalgo experiente nas guerras do Oriente. Apenas em 1535 Coelho chegou à sua capitania com sua família, colonos e suprimentos. Escolheu para sede administrativa um morro elevado debruçado sobre o oceano — estratégico, defensável, de visibilidade privilegiada. A exclamação atribuída ao fundador diante da paisagem, "Ó, linda!", tornou-se lenda fundadora do topônimo.

A vila prosperou com rapidez incomum. A cana-de-açúcar encontrou no massapê pernambucano o solo ideal; os engenhos multiplicaram-se pelo litoral e pela mata; o açúcar pernambucano chegava à Europa como o produto mais caro do mercado colonial. Em poucas décadas, Olinda tornara-se a capital da capitania mais rica do Brasil, com uma catedral, conventos franciscanos e beneditinos, câmara municipal e um pelourinho de pedra que simbolizava o poder da Coroa.

O crescimento tinha um preço: sustentava-se inteiramente no trabalho de africanos escravizados, importados em números crescentes à medida que a mão-de-obra indígena se esgotava. Em 1600, estimava-se que a capitania tinha cerca de 2.000 colonos europeus para dezenas de milhares de cativos — uma desproporção que marcaria profundamente a cultura, a língua e a identidade de Pernambuco.

"Olinda é boa terra, fértil, fresca e sadia; tem bom porto e muita lenha e água doce; é terra de muito mantimento."

— Carta de Duarte Coelho, c. 1542
1630–54
Domínio holandês · O Brasil de Nassau

O fogo e a gravura

Em 14 de fevereiro de 1630, a frota da Companhia das Índias Ocidentais (WIC) chegou ao litoral pernambucano com 67 navios e cerca de 7.000 homens. A tomada de Recife foi rápida. Olinda resistiu por dias — mas em 1631, prevendo o avanço holandês, os moradores portugueses preferiram incendiar a própria cidade a entregá-la intacta. O incêndio durou dias; o conjunto construído em quase um século de colonização virou cinzas. Os holandeses estabeleceram sua capital em Recife, que batizaram de Mauritstad.

Em 1637 chegou o Conde João Maurício de Nassau-Siegen, indicado pela WIC para governar o Brasil holandês. Nassau era culto, pragmático e visionário. Trouxe consigo uma corte de pintores, naturalistas e cartógrafos: Frans Post documentou a paisagem pernambucana em óleos de espantosa precisão topográfica; Albert Eckhout retratou os povos da terra; Georg Marcgraf catalogou a flora e fauna do nordeste; Willem Piso lançou as bases da medicina tropical. O período Nassau produziu o arquivo iconográfico mais completo do Brasil seiscentista.

Nassau partiu em 1644; sem seu talento político, a ocupação entrou em colapso. A Insurreição Pernambucana organizou-se a partir de 1645, reunindo portugueses, indígenas e africanos libertos num conflito que culminou com a Capitulação de Taborda em 1654 e a expulsão definitiva dos holandeses. Os 24 anos de presença neerlandesa deixaram, contudo, um legado iconográfico sem paralelo: os mapas de Marcgraf e as telas de Post são hoje peças de museu em Amsterdã, Haia e Paris.

"O Conde Nassau governou com tal prudência e suavidade que foi amado tanto pelos índios como pelos portugueses e pelos negros."

— Gaspar Barlaeus, Rerum per Octennium in Brasilia, 1647
séc. XIX–XX
Memória viva · Ladeiras e telhados

Reconstrução e memória

Com a saída dos holandeses, Olinda foi lentamente reconstruída ao longo do século XVIII. O conjunto que emergiu das ruínas tornou-se um dos mais coerentes exemplos de arquitetura colonial portuguesa nas Américas: igrejas de pedra e cal coroando cada morro, conventos com claustros e jardins suspensos, sobrados de dois pavimentos com fachadas de azulejos. O Convento de São Francisco — fundado em 1585 e reconstruído com os painéis de azulejaria portuguesa mais extensos do Brasil — tornou-se o ícone visual da cidade.

No século XIX, Olinda perdeu definitivamente sua primazia para Recife, que crescia como porto industrial e capital provincial moderna. As primeiras fotografias do período registram uma cidade de casas baixas e ladeiras de pedra, com igrejas a cada esquina e um ar de nobreza decaída. Foi justamente essa escala humana e essa densidade histórica que preservaram Olinda da modernização agressiva que caracterizou o século XX nas cidades brasileiras.

Na década de 1960, com a especulação imobiliária ameaçando as cidades históricas brasileiras, o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) tombou o conjunto urbano de Olinda. Intelectuais, artistas e moradores organizaram-se para resistir à verticalização — uma luta que salvaguardou o perfil de torres de igrejas e telhados de barro que ainda define a silhueta da cidade vista do mar.

"Cada pedra da ladeira é um documento. Lê-la é preservá-la."

— Ariano Suassuna, poeta e dramaturgo pernambucano
1982
Patrimônio vivo · UNESCO

Patrimônio da Humanidade

Em 1982, a UNESCO inscreveu o Sítio Histórico de Olinda na Lista do Patrimônio Cultural da Humanidade — o mesmo ano em que entravam na lista o centro histórico de Cracóvia e o Vaticano. O critério decisivo foi a integridade excepcional do conjunto: 20 igrejas barrocas, a trama de ladeiras de pedra irregular, a escala humana preservada, a relação visual entre o casario e o oceano. Olinda tornava-se símbolo internacional da preservação do patrimônio colonial ibero-americano.

Mas Olinda nunca foi um museu. É uma cidade que respira e pulsa. A cada fevereiro, o Carnaval de rua reinventa as ladeiras históricas: o Homem da Meia-Noite — boneco gigante de 4 metros —, os clubes de frevo, as troças carnavalescas, os bonecos gigantes que saem dos ateliês de artistas locais para desfilar entre as igrejas. A festa não é encenação para turistas: é ritual urbano que data do século XIX e pertence à própria carne da cidade.

Hoje, ateliês de artistas plásticos ocupam os sobrados coloniais da Rua do Amparo e adjacências. O MEPE (Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco) funciona num casarão do século XVIII. A gastronomia pernambucana floresce entre as pedras. A AESHO — Associação dos Empreendedores do Sítio Histórico de Olinda — organiza a hospitalidade, a hospedagem e as experiências culturais que fazem de Olinda uma das destinações mais autênticas do Nordeste. Quinhentos anos depois da exclamação de Duarte Coelho, a cidade ainda merece o nome.

"Olinda é um milagre de integridade urbana numa região onde o passado colonial foi sistematicamente demolido."

— Relatório de candidatura UNESCO, 1982
Identidade Visual · Viva Olinda
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